As inteligências múltiplas

 

Você tem alguns alunos que conseguem criar belos trabalhos de artes visuais? Outros tem talento para o esporte, fazendo séries complexas de movimentos físicos parecerem graciosos e fáceis? Alguns conseguem tocar tão bem um instrumento musical, que ouvi-los desperta a sensibilidade. Outros podem vibrar diante do desafio da precisão matemática. Outros podem adorar escrever e já experimentaram a emoção de ver suas próprias histórias ou poemas publicados.

 

Muitos podem ser lideres naturais, oferecendo exemplos positivos e orientação confiável a seus colegas. Outros ainda podem ter insights pessoais profundos sobre quem são e a que vieram, enquanto procuram atingir objetivos de vida importantes. Entre os alunos mencionados, qual seria o mais inteligente? A pergunta é impossível de responder, porque cada um dos exemplos representa alunos que desenvolveram inteligências diferentes. Cada aluno é único e todos, a seu modo, oferecendo contribuições valiosas para a cultura humana.

Em seu livro de 1983, Estruturas da Mente, Gardner apresentou sua Teoria das Inteligências Múltiplas, que reforça sua perspectiva intercultural da cognição humana.

 

As inteligências são linguagens que todas as pessoas falam e são, em parte, influenciadas pela cultura em que a pessoa nasceu. São ferramentas para aprendizagem, resolução de problemas e criatividade que todos os seres humanos podem usar. Segue-se uma breve descrição das oito inteligências de Gardner:

 

A inteligência lingüística consiste na capacidade de pensar com palavras e de usar a linguagem para expressar e avaliar significados complexos. Autores, poetas, jornalistas, palestrantes e locutores exibem graus elevados de inteligência lingüística.

 

A inteligência lógico-matemática possibilita calcular, quantificar, considerar proporções e hipóteses e realizar operações matemáticas complexas. Cientistas, matemáticos, contadores, engenheiros e programadores de computação demonstram forte inteligência lógico-matemática.

 

A inteligência espacial instiga a capacidade de pensar de maneiras tridimensionais, como fazem navegadores, pilotos, escultores, pintores e arquitetos. Permite que a pessoa perceba as imagens externas e internas, recrie, transforme ou modifique as imagens, movimente a si mesma e aos objetos através do espaço e produza ou decodifique informações gráficas.

 

A inteligência cinestésico-corporal permite que a pessoa manipule objetos e sintonize habilidades físicas. É evidente em atletas, dançarinos, cirurgiões e artesãos. Nas sociedades ocidentais, as habilidades físicas não são tão altamente valorizadas quanto as cognitivas, embora em outros lugares a capacidade de usar o corpo seja uma necessidade para a sobrevivência e também uma característica importante de muitos papéis de prestígio.

A inteligência musical é evidente em indivíduos que possuem uma sensibilidade para a entoação, a melodia, o ritmo e o tom. Compositores, maestros, instrumentistas, críticos musicais, fabricantes de instrumentos e também ouvintes sensíveis demonstram essa inteligência.

 

A inteligência interpessoal é a capacidade de compreender as outras pessoas e interagir efetivamente com elas. É evidente em professores bem-sucedidos, assistentes sociais, atores ou políticos. Como a cultura ocidental recentemente começou a reconhecer a conexão entre a mente e o corpo também passará a valorizar a importância da competência no comportamento interpessoal.

 

A inteligência intrapessoal refere-se à capacidade para construir uma percepção acurada de si mesmo e para usar esse conhecimento no planejamento e no direcionamento de sua vida. Alguns indivíduos com forte inteligência intrapessoal especializam-se como teólogos, psicólogos e filósofos.

 

A inteligência naturalista consiste em obserar padrões na natureza, identificando e classificando objetos e compreendendo os sistemas naturais e aqueles criados pelo homem. Incluem-se entre os naturalistas qualificados fazendeiros, botânicos, caçadores, ecologistas e paisagistas.

 

Gardner tem o cuidado de explicar que a inteligência não deve estar limitada àquelas que ele identificou. Entretanto, acredita que as oito proporcionam um quadro mais preciso das capacidades humanas do que as teorias unitárias anteriores. Ao contrário da pequena gama de habilidades que muitos testes-padrão de QI medem, a teoria de Gardner oferece uma imagem expandida do que significa ser humano. Eele também declara que cada inteligência contém várias subinteligências. Por exemplo, há subinteligências no domínio da música que incluem executar, cantar, escrever partituras musicais, reger, criticar e apreciar música. Cada uma das sete outras inteligências também abarca muitos componentes.

 

Outro aspecto das Inteligências Múltiplas é que elas podem ser conceituadas em três amplas categorias. Quatro das oito - espacial, lógico-matemática, cinestésico-corporal e naturalista - podem ser consideradas como formas de inteligência "relacionadas ao objeto". Essas capacidades são controladas e moldadas pelos objetos que os indivíduos encontram em seus ambientes. Por outro lado, as inteligências "isentas de objetos" - lingüística-verbal e musical - não são moldadas pelo mundo físico, mas dependem da linguagem e dos sistemas musicais. A terceira categoria consiste das inteligências "relacionadas às pessoas", com as inteligências inter e intrapessoais refletindo um conjunto poderoso de contrapesos.

 

Cada inteligência parece ter sua própria seqüência de desenvolvimento, emergindo e florescendo em diferentes momentos da vida. A inteligência musical é a forma de talento humano que emerge mais precocemente: a razão disso é um mistério. Gardner sugere que a revelação de um grande talento musical na infância pode estar condicionada ao fato de tal inteligência não depender da experiência adqurida com a vida. Por outro lado, as inteligências pessoais requerem uma grande interação com as outras pessoas e o feedback delas antes de se tornarem bem desenvolvidas.

 

Gardner acredita que, como cada inteligência pode ser usada para bons ou maus propósitos, todas as oito são inerentemente isentas de valor. Goebbels e Gandhi tinham grande inteligência interpessoal, mas aplicaram-na de maneiras incrivelmente diferentes. O modo como um indivíduo resolve usar sua inteligência dentro da sociedade é uma questão moral de fundamental importância.

 

É evidente que a criatividade pode ser expressa através de todas as inteligências. No entanto, Gardner observa que a maior parte das pessoas é criativa em um domínio específico. Por exemplo, embora Einstein fosse um talento matemático e científico, não exibia igual genialidade lingüística, cinestésica ou interpessoal. A maior parte das pessoas parece destacar-se em uma ou duas inteligências.

 

Este livro tem como objetivo mostrar como criar sistemas de educação abertos para possibilitar que a mente humana - que pode ser o mais aberto dos sistemas - floresça. Nem todos os seres humanos irão tornar-se grandes artistas, músicos ou escritores, mas toda a vida humana será enriquecida através do desenvolvimento de muitos tipos de inteligência da forma mais ampla possível. Quando os indivíduos têm oportunidades de aprender através de seus potenciais, mudanças cognitivas inesperadas e positivas, emocionais, sociais e até físicas ocorrerão.

 

Referência:
Título: Ensino e aprendizagem por meio das Inteligências Múltiplas
Autores: Linda Campbell, Bruce Campbell & Dee Dicknson
Editora: Artmed

Fonte: http://www.treinandogoleiros.com.br/texto.php?cod=71